quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ultramar - 'MEMÓRIAS DAS GUERRAS COLONIAIS', de João Paulo Guerra - Porto 1994



Ultramar - Memórias e cronologia da guerra colonial em Angola, Guiné e Moçambique


'MEMÓRIAS DAS GUERRAS COLONIAIS'
De João Paulo Guerra
Edição Afrontamento
Porto 1994


Livro com 454 páginas, muito ilustrado e em muito bom estado de conservação.
De muito difícil localização.
Raro


Da contra-capa:
" 'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' é uma investigação jornalística sobre as guerras dos portugueses em Angola, Guiné e Moçambique, de 1961 a 74. O contexto, a guerra e o envolvimento de Portugal na guerra colonial constituem a cabeça, tronco e membros do livro. Recorrendo à memória de participantes nas três guerras, a uma vastíssima bibliografia, a treze anos de notícias da imprensa, portuguesa e estrangeira, ao cruzamento de documentação dispersa, a fontes oficiais e particulares, o autor procura reconstituir a memória colectiva da guerra, o seu contexto histórico, nacional e internacional, desde que começaram a soprar os 'ventos da história', no final dos anos 50, até ao 'regresso das caravelas', em meados da década de 70.

'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' é assim uma viagem pela memória dos nacionalismo africanos e da intransigência de Lisboa, pelo malogro do reformismo colonial e pelo novo testamento do petróleo e dos diamantes, pelo isolamento e pelas alianças do regime colonial , pela estratégia e táctica, em três teatros de operações, para ganhar a guerra ou, pelo menos, para ganhar tempo, pelas negociações, disputas e intrigas à margem dos campos de batalha, pelos dogmas do regime e pelas dúvidas, certezas e incertezas das oposições, pelos caminhos que levaram o império a perder os pilares da Fé e da força das armas.

'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' é um livro de consulta necessária, porque o presente não pode dispensar a memória do passado.

JOÃO PAULO GUERRA, o autor, participou na guerra como 820 mil outros jovens portugueses da sua geração: foi Alferes miliciano 'caçador' de infantaria em Moçambique, tendo prestado serviço na província do Niassa, no Centro de Instrução de Anfantaria de Nampula e na 2.º Repartição do Posto Avançado do Quartel General.
Jornalista profissional, com uma longa carreira na rádio e nos jornais, acompanhou como tal o processo de descolonização e realizou trabalhos de reportagem nos cinco países africanos de língua portuguesa e em muitos outros países do continente africano."



Do ÍNDICE:
PREFÁCIO: Guerra é Guerra - JPG;

O CONTEXTO
1. - A MÃE ÁFRICA
Na rota dos barcos negreiros;
'A nova ordem das cousas';
2. - OS VENTOS DA HISTÓRIA
A caminho de Bandung;
A unidade africana;
3. - UM REFORMISMO À PORTUGUESA
O trabalho forçado;
Colonos e colonatos;
Adriano Moreira e o reformismo colonial;
4. - O NOVO TESTAMENTO
Petróleo, diamantes e ferro;
Modalidades da 'presença portuguesa';
5. - 'ORGULHOSAMENTE SÓS'
Washington - Lisboa: inimigos aliados;
As excepções e a regra;
6. - O BASTIÃO BRANCO
Energia para a 'Terceira África';
Envolvimento militar da África do Sul e da Rodésia;
7. - VIZINHOS E VIZINHANÇAS
Catanga a cobre, ferro e fogo;
Kaunda e o acesso ao mar;
Banda e o 'Estado-tampão';
Biafra e outras guerras;
8. - O CONCERTO DAS NAÇÕES
O Comité de Descolonização;
'Um grupo de Estados irresponsáveis';
9. - IDEOLOGIA E SOLIDARIEDADE
O preço da solidariedade;

A GUERRA
10. - ANGOLA: UM 'TEXAS' AFRICANO
Crescimento explosivo e desordenado;
11. - DAS CAMPANHAS MILITARES À GUERRA PREVENTIVA
Raízes do nacionalismo angolano;
A 'Guerra Preventiva';
12. - MPLA - NO CORAÇÃO DA TEMPESTADE
De Mário de Andrade a Agostinho Neto;
De Cabinda à Frente Leste;
'Áreas Libertadas';
A 'Família Africana';
13. - GUILMORE, ALIÁS ROBERTO
Guilmore-Ventura-Roberto;
'Uma criação dos Estado Unidos';
14. - OS 'IRMÃOS INIMIGOS'
'Dispersão de esforços';
15. - SAVIMBI E A PAZ COM OS 'TUGAS'
'Hipócritas e cristãos';
A tendência pró-americana;
National Union for Total Independence;
Operação 'Madeira';
16. - 'PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA'
Forças rebeldes locais;
Ao som de 'Angola É Nossa';
'Um foco de intensa subversão';
A batalha da economia;
17. - GUINÉ-BISSAU: DA 'PACIFICAÇÃO' À GUERRA COLONIAL'
E então chegou a CUF;
Amílcar Cabral em nome do PAI;
18. - PALAVRAS DE ORDEM
'Desvios do militarismo';
'Áreas Libertadas';
19. - O DIEN BIEN PHU DOS PORTUGUESES
Posições enquistadas;
A África do futuro;
'Restava-nos retirar em boa ordem';
20. - NEGOCIAÇÕES E GUERRA SUJA
'Não é forçoso que vençam';
Decapitar o PAIGC;
Infiltrados e arrependidos;
21. - GUINÉ E CABO VERDE: UM POEMA DIFERENTE
O Estado da Guiné-Bissau;
O povo das ilhas;
22. - MOÇAMBIQUE: DA 'PACIFICAÇÃO' À LUTA ARMADA
De Gungunhana a Mondlane;
Entretanto começou a guerra;
23. - A FRELIMO E A GUERRA POPULAR PROLONGADA
'Educar, organizar, armar todo o povo';
Fazer uma revolução;
Mondlane e a luta por Moçambique;
Plekhanov armadilhado;
'Unanimidade de fachada';
Um universo de siglas;
24. - OS CORREDORES DO INFERNO
Começou a guerra;
De 'John Killer' ao general Kapa;
Do 'Nó Górdio' à fronteira;
Moçambique - Ameaça à Rodésia;
'Uma comcepção cruel da guerra';
12 combates por dia;
25. - CENTENAS DE WIRIYAMUS
Não foi um acampamento de 'terroristas';
'Qualquer coisa de muito grava';
'Até que o escândalo rebentou';
Conquistar corações ou cortar cabeças;
'Os tristes acontecimentos de Moçambique';
Não ficou ninguém para aldear;
26. - JARDIM E A 'INDEPENDÊNCIA BRANCA'
'Solução ímpar em África';
Golpe de Estado;

PORTUGAL NA GUERRA
27. - O COMPLEXO DA ÍNDIA
S. Tomé: folguedos e procissões;
Timor: sob inspecção de Jacarta:
Macau: um caso de polícia;
Índia: Salazar rejeitou:
Vitória ou morte;
28. - À MARGEM DOS CAMPOS DE BATALHA
Um conceito de autodeterminação;
Integração ou autonomia;
29. - 'O ULTRAMAR NÃO SE DISCUTE'
Hereges e heresias;
'Viemos com a morte'
De remodelação em remodelação à sucessão de Salazar;
Evolução na continuidade;
30. - A FORÇA DAS ARMAS
O Movimento dos capitães;
'PORTUGAL E O FUTURO';
31. - A FÉ E O IMPÉRIO
A Santa Madre Pátria;
Rezar pela paz em Fátima;
Os direitos do Homem e o Evangelho;
Da Capela do Rato à Igreja do Macúti;
32. - A QUARTA FRENTE
Da oposição republicana ao socialismo reformista;
Da vendas das colónias à independência já;
O 'General Sem Medo';
Guerra à guerra;
33. - 'ADEUS E ATÉ AO MEU REGRESSO'
Entre mortos e feridos;
Prisioneiros de guerra;
Faltosos, refractários e desertores;
Os custos da guerra;
A guerra psicológica;
A vida a dois passos da morte;
34. - CAÇADORES DE CABEÇAS
Pseudo-Terroristas e grupos especiais;
A PIDE em operações;
35. - CESSAR FOGO
'À sombra da bandeira portuguesa';
O quadro legal da descolonização;
Da Guiné à contra-costa;
Angola: paz podre e guerra aberta;
36. - 13 ANOS DE GUERRA E OUTRAS GUERRAS
Cronologia dos acontecimentos de 1961 a Abril de 1974;



Um livro histórico - César Oliveira

"O livro de João Paulo Guerra 'Memória das Guerras Coloniais' faz o inventário histórico do processo, complexo e perturbador, que conduziu ao encerrar do ciclo imperial africano. Diferentemente da independência do Brasil – que ficou a assinalar o fim do segundo ciclo do império -, o desmoronamento da presença colonial portuguesa em África realizou-se num quadro de uma guerra em três teatros de operações que durou 13 anos, e no contexto de um regime de ditadura que ligou, voluntariamente, o destino da sua própria sobrevivência ao desfecho das guerras em África. Por assim ser, o fim do império implicou traumas, visões apaixonadas e, sobretudo, tabus. Este magnífico trabalho a que na contracapa se chama, impropriamente, 'investigação jornalística', vem romper um tabu importante que talvez tenha medrado no «caldo de cultura» do respeito e da gratidão – que quase todos temos – pelo MFA e pelos militares de Abril que foram agentes activos no encerramento da aventura africana e que fizeram as guerras coloniais. E escrevemos que a editora chama impropriamente 'investigação jornalística' ao trabalho de João Paulo Guerra porque, com essa classificação, parece querer distinguir esse trabalho de uma investigação histórica à qual é suposto ser atribuída uma qualidade «superior» a esta «investigação jornalística».

Ora o livro que apreciamos é um esforço sério, documentado, vasto e fundamentado, permitindo a análise e compreensão de um dado objectivo (as guerras coloniais), de que resultou uma narrativa clara, atractiva e suficientemente ampla, que dá, com a distanciação possível, uma visão elucidativa que acrescenta substantivamente o nosso conhecimento sobre uma temática fundamental do nosso próprio tempo. Por podermos classificar o trabalho de João Paulo Guerra exactamente do modo como acabámos de fazer, pensamos ser inadequada a a qualificação, quiçá por vontade e modéstia do autor, que «formalmente» a editora faz em relação a Memória das Guerras Coloniais. Porque pensamos que a história é, também, fundamentada com o maior rigor possível e a isenção suficiente e necessária a uma actividade e prática científica onde não é possível a neutralidade ou a assunção de verdades incontroversas e definitivas, estamos confrontados com uma investigação histórica que não utilizou o acervo documental dos arquivos como fonte, mas que combina, com felicidade, a narrativa histórica com alguma metodologia habitualmente usada pelo jornalista que João Paulo Guerra é.

Porque, se há por aí, pelas tertúlias intelectuais e académicas, a difusão de concepções que produzem historiografia que quase não tem narrativa, que faz da «'bra historiográfica' uma 'coisa hermética', de difícil e, algumas vezes, dolorosa leitura, a verdade é esta: tais concepções acrescentam, seguramente, o nosso conhecimento, mas fazem-no de uma forma redutora e no pior do elitismo. Aquilo que produzem ou não chega ao público comum que quer ser informado ou, quando chega, não é lido com o prazer e com o 'gozo' que nos proporciona o trabalho de João Paulo Guerra.

Poderemos discordar da arrumação de certos capítulos que, se estivessem arrumados por ordem cronológica dos acontecimentos, dariam, eventualmente, ainda maior clareza e facilidade de leitura a este excelente trabalho de J. Paulo Guerra.

Só o domínio das temáticas tratadas, o profundo conhecimento da bibliografia utilizada e a preocupação de um distanciamento que não significou, para J.P.G., neutralidade, pôde permitir a escrita fluente, escorreita e atrativa deste texto. Quem não compreendeu a dinâmica essencial de u m dado período ou um determinado tema pode fazer dezenas e centenas de citações, inserir notas sobre notas e pés-de-página extensos e produzir, aparentemente, uma obra de «grande peso académico», mas que, de facto, não acrescentou nada de significativo ao conhecimento colectivo. Esta obra é o contrário disso.

João Paulo Guerra indica também uma variada e extensa bibliografia que lamentamos estar inscrita no final de cada capítulo. É este o único reparo 'de fundo' que fazemos ao autor: uma bibliografia final, ainda que por referência aos grandes subtemas tratados, seria extremamente útil e encorajadora para outras investigações. A cronologia é, também, uma importante contribuição deste trabalho.

Enfim, e na síntese que cabe no espaço de que disponho: um trabalho importante, inovador na forma e corajoso no conteúdo, publicado no momento oportuno. Momento em que quase tudo e quase todos parecem apostados em 'baralhar' par 'dar de novo', isto é, para mitificar um período e uma 'memória' que, quanto a nós, cada vez mais importa estudar, investigar e reavivar."


César Oliveira, Expresso, 23 Abril 1994


" 'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' est ce qui existe de mieux dans le genre journalistique. Sa bibliographie est composé, apparement, à partir de sa propre bibliothèque. Certains de ses atribuitions sont fausses, mais il utilise des dossiers de presse d'une grande fécondité. De plus, il a le mérite d'avoir découvert des rapports de la PIDE, la policie politique portugaise, sur les années passées par Savimbi au Portugal.

L'ouvrage de Joao Paulo Guerra est une sorte de vade-mecum à l'usage d'une jeune génération qui a oublié qu'entre 1961 et 1974 tombaient en Afrique une moyenne de 630 morts chaque année dans le camps portugais (dont 70 % de metropolitans), soit, proportionnellement aux populations, incomparablement plus que les Americains au Vietnam."


René Pélissier, 'Afrique Contemporaine', 2º trimestre 1995


"Este livro admirável do jornalista João Paulo Guerra, Memória das Guerras Coloniais, tem um destino marcado: mergulhar, com merecida glória, no universo das letras malditas. E por ser, no seu fulgor investigativo, um documento inapelável na clarificação das origens, índole e projectos dos vários movimentos armados de libertação, 'Memória das Guerras Coloniais' é uma obra que devemos inscrever, sem perda de tempo, na montra de honra dos eventos comemorativos dos 25 anos do 25 de Abril."

Luís Alberto Ferreira, 'Jornal de Notícias', 5 Abril 1994


"História e jornalismo
Num 'dossier' como este, em que se discutem a hipotética proximidade ou o hipotético afastamento entre a ficção e o jornalismo, o jornalista João Paulo Guerra tem o direito a um lugar à parte. Aqui, o jornalista invade os terrenos do historiador. E fá-lo não por brutal direito de conquista, mas porque cumpre humildemente os requisitos do 'métier'. 'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' é um livro de trabalho, de investigação.

João Paulo Guerra é historiador e historiador sério. Mas a sua condição de jornalista vem amiúde ao de cima, quando descreve uma batalha, uma greve, um golpe de mão. Aí, a atenção ao pormenor que define uma situação trai o repórter que sabe que um desabafo é por vezes mais significativo do que um discurso.

'MEMÓRIA DAS GUERRAS COLONIAIS' cumpre duplamente: a sua leitura torna-nos mais cultos e lúcidos e a sua consulta é fácil."


Torquato Sepúlveda, Público, 4 Junho 1994


Preço: 45,00€

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